Juliana Vilas, 29, codinome "Pássara", é jornalista. Mas gosta mesmo é de "medir ruas" e ouvir histórias de gente de todos os tipos. Paulistana da zona norte, morou um ano e meio no Rio de Janeiro e, apesar da agradável maresia, sofria de saudade do doce ar da paulicéia. Jamais se recusa a conhecer lugares novos e/ou inusitados, seja para comer, dançar, transar ou fazer qualquer coisa. Como pega amizade fácil em elevadores, metrôs, trens e até no ponto de ônibus, é uma espécie de garimpeira urbana das histórias cotidianas da metrópole.
Geraldo é o personagem do Vozes da Cidade deste mês – em Marco Zero, editada por Denerval F. Jr. - na ÉpocaSP que está nas bancas. Geraldo não sabe ler ou escrever direito, mas entende mais de política do que muito pseudo-intelectual criado em laboratório à base de Danoninho. Tive o prazer de entrevista-lo há cerca de um mês e aprendi muito com sua sabedoria, conhecimento e senso de humor. Aquele bom humor típico e inexplicável (aos olhos das classes mais abastadas e reclamonas) do povo sofrido do Brasilzão. Acorda antes das 5 da manhã, assiste ao Telecurso na TV, vai trabalhar ouvindo a CBN no percurso de mais de duas horas de casa ao trabalho, no lado Jardins da na rua Augusta. É faxineiro de um prédio comercial. Hoje, quando eu media ruas de modo apressado naquela região, qual não foi minha surpresa ao cruzar, sem querer, com o nosso glorioso personagem? Muita festa, beijos e abraços. E um aviso de Geraldo aos eleitores paulistanos. Assista:
Com a palavra, Leo, 18 anos, um dos sete jovens que cuidam da galeria subterrânea da Consolação (ver post anterior). Ele faz parte da associação criada para receber obras de arte e idéias para exposições – os artistas vão lá e mostram o que gostariam de expor naquele espaço -, selecionar e enviar as melhores para a Prefeitura. As obras eleitas ficam expostas na mostra urbana durante um mês. Além da curadoria, a turma do Leo também vende os livros. E varre, escolhe o som ambiente e fica no pé da Prefeitura para consertar o teto furado ou tirar dali um degrauzinho inconveniente no qual “todo mundo sempre tropeça”.
- Nem dá vontade de rir mais dos tropeços do pessoal – diz Leo – Mas a gente já ligou tanto pedindo para tirar… E nada….
Tudo bem, Leo, pelo que era antes essa passagem subterrânea, a nova galeria urbana está maravilhosa, memso com degraus e buracos no teto. E, o melhor: tem público garantido…
Galeria sub da Consolação – passagem que liga a av. Paulista à Rua Minas Gerais – de segunda à sexta das 7h às 22h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 22h.
Há cerca de três anos, dava até medo de atravessar a passagem subterrânea do Cine HSBC Belas Artes (parecia a passarela onde a mocinha é estuprada no filme Irreversível), que liga a Paulista à rua Minas Gerais, por baixo da Consolação. Graças à iniciativa de um grupo de vendedores de livros da região, o espaço virou uma galeria de arte/sebo. Uma associação de sete pessoas toma conta, escolhe as obras e envia para a Prefeitura aprovar. Cada exposição fica ali durante um mês. Todos os dias, das 7h às 22h, é possível encontrar street arte, bons livros, música boa e um grupo de jovens bacanas e atenciosos.
Um dos mais velhos comerciantes ainda em atividade no Mercadão é Seu Quintas. A. Quintas. A de Antônio. Lá está ele, com o indefectível jaleco branco, no box que vende exclusivamente produtos para feijoada.
- Tenho 81 e estou há 70 anos aqui. Meu pai chegou quando o mercado ainda era central de abastecimento de empórios, vendinhas, secos e molhados. E também das casas. Era tudo diferente naquela época. Hoje isso aqui é lugar de passeio, um ponto turístico da cidade. E o que mais vende é sanduíche de mortadela. Mas quando eu era menino, só tinha quatro cafés, aqui… Agora tem mais lanchonetes do que barracas. E nem existia supermercado no Brasil. As pessoas cozinhavam em casa. E hoje todo mundo compra comida pronta, né?
Apesar disso, garante que “não pode reclamar, não”. Os negócios vão bem, obrigada. Tanto que criou dois filhos “que estudaram e tiveram boas oportunidades profissionais fora daqui”.
Paulistano do Belém, Quintas hoje mora no Tatuapé, mas não se conforma com a transformação do bairro ao longo dos anos. Hoje, analisa indignado, só tem prédios de luxo por ali. E até a Vila Formosa mudou de nome.
City Tatuapé, que seu Quintas chama de “saite Tatuapé”, é o apelido carinhoso que os moradores mais jovens do bairro adotaram para a região. O centro da tal city, podemos dizer, é a badalada Praça Sílvio Romero. E no Shopping Anália Franco, os novos endinheirados da velha Vila Formosa podem encontrar (quase) todas as grifes nacionais e internacionais mais queridas dos brasileiros como Zara, MAC… É, seu Quintas… A Zolé* não é mais a mesma não…
* apelido pelo qual os moradores da zona sul, jardins e afins costumavam chamar a região leste da cidade, famosa por ser o principal celeiro cultural de manos e minas autênticos. Pronto. Falei.
O Mercadão de São Paulo deixou de ser um “centro de abastecimento” e virou ponto turístico, segundo os comerciantes mais tradicionais do local - a maioria dona de barracas de frutas, frios, peixes e carnes. Por ali, além dos pastéis (de bacalhau, principalmente, o mais procurado e divulgado) e dos manjados sanduíches gigantes de mortadela, uma vitrine convida os turistas para a sobremesa. Porções e espetinhos de frutas são servidos com muita calda de chocolate por até R$ 5. O melhor é a plaquinha que traz um recado sobre os benefícios do chocolate - provavelmente para aliviar a culpa dos chocólatras e compulsivos em geral.
O pai abriu uma loja de revistas antigas em 1943, na rua Aurora. Anos depois, os filhos inauguraram a filial, na Avenida São João, ao lado do Anhangabaú. Mais que um sebo, na loja gigante é possível encontrar qualquer coisa que já passou pelas bancas e depois foi recolhido pelas editoras – e recomprado pelos irmãos. As revistas sobre tatuagem e crochê, segundo Luiz, são as que mais vendem, assim como as que ensinam idiomas. Mas sucesso mesmo são os pôsteres de galãs e astros pop e heróis de todos os tempos, com destaque para Guevara (o Che) e Marley (o Bob).
Os cartazes de filmes antigos são cobiçadíssimos, mas não estão à venda. Decoram a loja, foram doados pelas produtoras e estão colados na parede. E o melhor é que, em quase todos, a atriz Dercy Gonçalves – que agora descansa em pé – é protagonista. Viraram relíquias, claro.
A receita é simples: compre uma peça de acém, deixe descansar na água salgada com cebola por uma noite, cozinhe bem (na pressão) e depois desfie a peça. Faça um molho caprichado (o segredo está aí; pode colocar tudo o que achar conveniente, sendo que molho de tomate é a base) e depois misture tudo: carne e molho. Sirva quente no pão francês, de preferência.
O sanduíche de carne louca é o verdadeiro hit das festas infantis. Depois do brigadeiro, claro. Ou melhor, antes.
E qual não foi a minha surpresa quando descobri, depois de freqüentar várias festas caseiras no Rio de Janeiro e de fazer uma pesquisa qualitativa completa com amigos cariocas, baianos e mineiros, que a iguaria (feita exatamente assim), é típica de São Paulo? O sanduíche tornou-se, então, o “hit das festas infantis da periferia paulistana”. Delícia quase unânime entre os carnívoros, a louca, que já faz parte do cardápio dos bufetts, invade agora as ruas da cidade. Detalhe: a carne louca é totalmente diferente do famigerado churrasco grego, típico do mundo das ruas. Até pouco tempo, era uma receita exclusivamente caseira, passada de mães para filhos.
Nena vende carne louca numa barraca de calçada, mas insiste que o nome real é “carne maluca”. Não sei se faz muita diferença, ela garante que é acém desfiada. Mas em vez do pão francês, ela serve o sanduíche no pão de hot dog – aquele que esfarela. A barraca da Nena fica ao lado do Fórum Criminal, na zona oeste da cidade. Ela não quis, de jeito nenhum, posar para foto ou gravar vídeos (deveria ter roubado, mas..). A prefeitura não deixa vender comida quente na rua e ela tem medo de que o blog a denuncie.
- Outro dia veio aqui uma repórter de um jornal e logo no outro dia já apareceu (sic) os fiscais. Não falo mais não…
- Então deixa eu fotografar a carne? - pergunto
- Nããão, não pode não…
- Mas eu não estou com fome agora e não aceito carne louca sem pão francês, então preciso ver sem comprar.
- Não dá mesmo…
- E essa barraca de pastel aí do lado não faz concorrência com você?
- Não, tem gosto para tudo - responde Nena, já meio sem paciência e monossilábica, olhando para o nada…
- Bom… E que hora do dia você vende mais?
- Depois da uma da tarde.
- Você mesma faz a carne?
- É.
- E essa declaração de amor na placa, com coraçao e tudo?
- Não, é só… Ah, é nada isso aí…
Tá então.
Bom, fiquei sem entender se existe alguma diferença entre as receitas da tradicional carne louca que eu conheço desde a infância e da maluca da Nena (a carne, não a moça desconfiada). Mas também… A julgar pela plaquinha, pelo jeitão da barraca e pelo medo dela de me mostrar o recheio do sanduba, acho que nem precisava provar. De qualquer modo, em nome do bom jornalismo, passo lá de novo com fome brevemente. Aguardem.
Ulysses, 51 anos, conhece pelo nome todos os usuários assíduos da linha Barra Funda-Jd. Fontalis. É motorista há seis anos, mas nas últimas semanas está atuando como cobrador porque “minha carteira precisa ser renovada”. Acha bom. “Cobrador ganha menos, mas sentado aqui eu converso, vejo tudo, me divirto”, compara. Pai de três filhos, formou um verdadeiro clã de ases do volante. “Meu filho mais novo, de 22 anos, dirige caminhão. Eu que ensinei. Ele diz que não esquece dos tapas na perna que levou de mim quando fazia barbeiragem”, lembra.
Falastrão, Ulysses é daqueles que perde o amigo, mas nunca a piada. “O cabeção vai ficar com ciúme porque eu estou dando entrevista para você”, caçoa, referindo-se ao motorista de crânio meio avantajado. Briga com as senhoras do ônibus, olha as mulheres bonitas e dá fé de tudo o que acontece ao longo do percurso, de dia e de noite. “Pego às cinco da manhã e largo às 11 da noite”.
Como assim? Desquitado, mora num quartinho na garagem da empresa, perto do Horto Florestal, na zona norte. E tem folga a cada 25 dias. Como assim? (de novo). “Você dorme? Quantas horas por dia?” “Três ou quatro só”, responde Ulysses, que provavelmente tenta enriquecer só acumulando o que ganha com as horas extras. E me mostra uma planilha da empresa onde anota a hora de entrada e saída do trabalho. “Mas por que trabalhar tanto?”, pergunto. “Eu gosto. Também… Não tenho nada mais para fazer”. “Nunca sai? Nem namora?”, questiono, já apavorada. “Claro, mas nada sério. Eu só fico, como dizem por aí, com algumas mulheres. Mas só nos meus dias de folga”. Nem poderia ser diferente. Namorar na catraca do busão não seria naaaada fácil…
Foi o Ulysses quem avisou, aliás. “A tarifa vai subir para R$ 2,50, viu? Vão aumentar o tempo da viagem livre de duas para três horas, mas o preço aumenta também. Você acha que eles iam só perder? Mas nunca”. É, Ulysses… Não existe jantar de graça mesmo…
Cerca de metade das barracas de comidas e bugigangas da capital é comandada por ambulantes contratados. O dono do negócio compra vários pontos, instala a estrutura (dog, churros, batatas fritas, milho e etc) contrata um gerente e vários vendedores em turnos, que recebem um salário fixo, um pouco mais que o mínimo. Um ou outro ambulante já conseguiu realizar o sonho da barraca própria e pode dormir mais sossegado. Seu Mário é bom exemplo: vende espetinhos de carne e lingüiça perto da Ponte do Jaguaré e já comprou carro e casa para a família. Trabalha de segunda à sexta das 15h às 22h e ganha cerca de R$ 4 mil por mês. Nada mal. Seu Mario está tão satisfeito que nem quer ampliar a rede ou colocar funcionários trabalhando para ele em outros pontos da cidade. E explica o motivo, no fim do vídeo.