Mendigo não!
A senhora com jeito de andarilha estava sentada na mureta. Na volta, continuava lá, mexendo nuns sacos cheios de coisas. No canteiro que divide as duas pistas do viaduto Pacaembu, próximo dali, estava uma funcionária da Prefeitura com camiseta e jaqueta azul Royal – “São Paulo protege – Ligue 156”. Rosa, quase 35, seios fartos daqueles que juntam com barriga e cintura e formam uma coisa só antes das pernas, não quis foto nem vídeo. Mas falou sobre sua atuação. “Eu vim atender uma denúncia de trabalho infantil. Disseram que tinha criança panfletando aqui, mas hoje devem ter fugido”. Intrigada, olha para a tal senhora na mureta do outro lado enquanto fala.
- Vocês recolhem quem está na rua, né? E aquela senhora ali, sabe dela? – pergunto.
“Vou lá abordá-la agora, mas parece que tem confusão mental, o que dificulta ainda mais o trabalho. A gente fiscaliza trabalho e abuso sexual infantil e leva os moradores de rua para os albergues. Mas é preciso ter boa lábia e persuadi-los. A maioria não quer sair das ruas”, explica. Pergunto se posso acompanhá-la na abordagem. Não, claro.
- Então vou ficar olhando de longe.
Ok. Rosa atravessa e vai falar com a velhota.
Sempre que um cidadão se recusa a acompanhar o pessoal da prefeitura, deve assinar um termo – isentando o poder público de responsabilidade e dizendo algo do tipo “bem que tentamos” e tal. Como a velhinha não quis ir, Rosa foi buscar o documento na Kombi, logo ali. Nesse ínterim, a velhota levantou e saiu, fugida mesmo, tentando atravessar o farol aberto – para carros. Como a blogueira não ouviu a conversa, seguiu a velhota no meio dos automóveis. Primeiro foi ignorada. E depois levou uma invertida da tia. Então tá, né?
É… Ela disse: “sai daqui muié!”
E Rosa, quando voltou à mureta, ficou no vácuo. “Ela disse que veio de Campinas, que não precisava nos acompanhar porque mora numa favela ali ao lado do Corpo de Bombeiros (aponta para o lado da Pompéia). Tem Bombeiro ali? Enfim… Quando fui buscar esse termo, que ela deveria assinar ou colocar a digital, fugiu. Tudo bem, tenho outro chamado e já vou”
- Então vocês atendem chamados de moradores da cidade dizendo coisas do tipo: tem um mendigo aqui na minha porta…
“Mendigo não, a gente não usa essa palavra. É pessoa em situação de rua. Para não criar estigma, né? Mas é isso mesmo: as pessoas denunciam e a gente vai até o local. Muitas vezes, o morador de rua veio de outra cidade e não têm dinheiro para voltar. A Prefeitura paga a passagem, nesses casos. Mas, como eu disse, a maioria não quer ir conosco, nem no frio”
- E qual foi o caso mais bizarro que você já viu? – questiono
“ O de um rapaz de 26 anos, alto, moreno, bonito, que tinha profissão, estudo e morava na porta da casa do pai. Viciado em bebida”.
- Mas o pai o expulsou de casa?
“Não, o pai internou o filho seis vezes, não adiantou. Ele caia bêbado na porta mesmo e andava jogado pelas ruas, cheguei e vê-lo em vários pontos da cidade. E, você vê, não precisava, né?”, lamenta Rosa, antes de se despedir e entrar na Kombi para mais uma missão.
Entre aqui para conferir o Programa Cidade Limpa. Não, SP recolhe. Não SP Protege:
Na esquina da avenida Marquês de São Vicente e Viaduto Pacaembu.
