Juliana Vilas

Juliana Vilas, 29, codinome "Pássara", é repórter. Do tipo que gosta de "medir ruas" e ouvir histórias de gente de todos os tipos. Paulistana da zona norte, já morou em vários becos da cidade: Santana, Tremembé, Jaçanã, Tatuapé, Paraíso, Água Branca, Aclimação, Paulista e Bela Vista. É uma espécie de garimpeira urbana de "causos", com ou sem finais felizes.



  • Vida Pechincha
  • Sampa meu Lugar
  • SP-Paris


  • 27 de Novembro de 2008

    Desgraceira made in Sampa

    Luciana Batista de Oliveira, 27 anos, quatro filhos, trabalha com reciclagem (cata papel e vende). À beira da Rodovia Fernão Dias, quase na divisa entre São Paulo e Guarulhos, ela mora há dois meses num barraco de madeira que divide com marido e crianças. De um lado, carros e caminhões passam “a milhão†bem na porta, onde os meninos empinam pipas. Do outro, o Rio Tietê corre sujíssimo debaixo da janela. “A gente tem medo que as crianças caiam lá dentro quando chove e tem enxurradaâ€, ela comenta. E de que mais sente medo esta família? De incêndio. “Já tive que fugir de um na outra favela em que morava e não foi bom. Tenho mais medo do fofo do que da água. Numa enchente, você pode nadar, e para sair do fogo?â€, pergunta, elegendo a desgraça menos pior a que esta sujeita. Infecções ela não citou. Mas nem precisou. Sujeira, umidade, comida e panos imundos dividem espaço na casa com uma gata branca de aspecto cansado e sarnento que amamenta três filhotes sobre um sofá azulão. Um dos gatinhos, no entanto, é menor que os demais. “Os meninos acharam esse pequeno no Rio e trouxeram. Agora ela está dando de mama para ele tambémâ€, narra a moça que, bem tratada, faria sucesso pela beleza.

    A casa de madeira, instalada em terreno irregular, é “própriaâ€. Urblog reproduz exatamente o que disse Luciana. “Queria muito sair do barraco, mas ainda é melhor morar aqui do que pagar aluguel. Pelo menos é nosso. Meu sogro vendeu para nós, por dois mil reais e uma televisão. Mas ainda não temos a escrituraâ€, conta Luciana, que não pode tomar anticoncepcional, não confia no DIU e não pôde ser operada pelo SUS para evitar mais gestações porque ainda não tem 30 anos. Assim, desconfia que está grávida de novo. Sem coragem para fazer o exame e encarar o resultado positivo, diz que vai numa igreja evangélica para que Deus revele seu possível quinto filho. Para ir trabalhar ou ao culto, deixa as crianças sozinhas em casa. “O mais velho cuida dos outrosâ€. O mais velho tem 10 anos.

    Você viu, Luciana, o que aconteceu em Santa Catarina?
    “Vi, mas falei pro meu marido: não sipórto ver televisão. Só violência, desgraça, pobreza. Não dáâ€. É… Não dá mesmo para ver TV, sobretudo depois que a família deu o televisor como parte do pagamento da casa. Para o avô das crianças.

    • O título deste post é uma homenagem ao talentoso paulistano Marco de Castro, o “olheiro da desgraçaâ€. Marco é autor do blog Desgraceira que, atualizado ou não, sempre tem texto deliciosos, belas narrativas de bastidores da cobertura policial em São Paulo.

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    comentários dos leitores (6)

    1. Oswaldo Dantas

      30 de Novembro de 2008

      Encontrei o link da matéria de 2002 da Revista Veja sobre os motociclistas Hells Angels ( http://veja.abril.com.br/290502/p_078.html ), você sabia que agora estão em GUERRA aqui no Brasil com o grupo Abutres MC ?
      É essa história de motociclista solidario parece ter virado faxada para grandes quadrilhas organizadas e especilizadas em tráfico internacional de drogas como anfetaminas, Lsd, extase e outras. Quem anda no meio já viu tanto integrantes da guangue Abutres como Hells Angels armados até de metralhadora.

      Visite o link: http://mc-onepercent.50webs.com e depois leia o relato abaixo de uma pessoa que presenciou o encontro das duas gangues no Brasil durante o American Chopeer em Interlagos/SP em setembro de 2008:

      Para muitos, andar de moto é mais do que lazer, é levado muito à sério. Há profissionais que ganham a vida sobre 2 rodas, correndo nas pistas internacionais, nas cidades fazendo entregas, ou ainda, escrevendo para jornais e revistas especializadas. Além disso há ainda os Moto Clubes(M.C.). Embora não seja obrigatório participar desses clubes, o motociclista que vive a experiência de um grande M.C., o segue como uma religião. E não ouse questionar sua escolha, pois certamente será motivo de encrencas.

      Motociclista há 7 anos, mas apaixonado por motos desde a infância, tive a oportunidade de unir duas coisas que gosto muito, agora, na faculdade: motociclismo e técnicas de jornalismo. Em recente evento em São Paulo, presenciei o ápice do amor incondicional à um clube, a defesa das cores que representa, ao símbolo que estampa às costas de um colete. O confronto entre dois dos maiores Moto Clubes do mundo: O Abutre’s M.C. do Brasil, e o Hell’s Angels M.C. Estes homens sim, vivem pelo clube, custe o que custar.

      Dia 6 de setembro de 2008, não era pra ser apenas um sábado, uma véspera de feriado, ou um dos dias do maior evento motociclístico do ano, em Interlagos. Pensando bem, pode até ser que qualquer dessas indicações represente fielmente o que foi o dia. Mas à noite, esta definitivamente estava reservada para a batalha.

      As aves e os seres alados se prepararam cada qual da sua maneira. Embora nada explícito, ambos os lados já imaginavam o que poderia acontecer. Obviamente, ninguém confirma nada, não há versão oficial, mas cada integrante dos dois grupos já sentia que o vento gelado arrepiava mais do que o normal.

      De um lado, os Abutre’s, que já foram considerados “raça em extinção”, hoje em plena expansão; Genuinamente brasileiro e fundado em 1989, hoje é o maior motoclube do Brasil e da América Latina e o 4º maior em todo o mundo. De outro, os Hell’s Angels, os anjos do inferno. Uma facção brasileira de um dos principais motoclubes do mundo, os Hell’s Angels da Califórnia, EUA. Pioneiros na adoção de regras miltares no clube, os Hell’s Angels estão espalhados por todo o mundo, e não vêem com bons olhos o domínio Abutre na América Latina.

      Quando os Abutre’s chegaram ao evento, como num vôo rasante e em câmera lenta, atraíram todos os olhares, lentes e flashes. Um comboio com mais de 50 motos, dispostos em 2 filas indianas paralelas, estremeceu o autódromo com o ronco das máquinas negras (uma das regras do Clube é a obrigatoriedade da moto ser da cor preta). A fila de motos era tão grande que a última moto, um triciclo preto decorado com caveiras, crucifixos e caixões, mal havia ultrapassado o portão de entrada, enquanto a primeira moto, a do presidente, já se preparava para estacionar.

      Antes disso, porém, outro grupo já havia despertado a atenção e curiosidade dos visitantes. Também com mais de 50 motos, os Hells Angels chegaram exibindo o brilho e o ronco de suas máquinas envenenadas. Característicamente avessos à publicidade à pessoas de fora de seu grupo, os Anjos do Inferno se refugiaram numa área bastante privilegiada; um trecho bem escuro, atrás dos estandes de motos e dos bares, longe dos curiosos, fotógrafos e cinegrafistas. Se tornou perfeito “ponto de observação” ao perceber onde os Abutre’s estacionavam: na pista de cima, no meio dos estandes, embaixo dos refletores. Podiam ver tudo, sem ser vistos.

      Apesar da aparente tranquilidade, o clima estava tenso. Nem mesmo a presença de nomes consagrados no motociclismo como a O.C.C., famíla protagonista do reallity show “American Chopper” no canal People and Arts conseguiu tirar a atenção dos clubes. Como num jogo de xadrez, cada movimento do adversário é analisado com cautela, e prepara-se para o bote na hora certa.

      Cerca de meia hora depois da chegada, os Abutres resolvem descer à pista, até o estande de motos personalizadas. Em grupo, descem seguindo a ordem hierárquica: primeiro o presidente e vice, depois os diretores e por fim, os demais membros do clube. Perto dali, na penumbra, os Anjos observam… e se preparam.

      No estande há um bar, oficinas, mesas e cadeiras. As belas motos, em exposição, dão um toque final à cena que viria a seguir: os Abutres reunidos em volta de seu presidente, como num grande círculo de coletes de couro pretos com a ave desenhada às costas. Em meio à multidão de pessoas que passavam por alí, surgiu um grupo de homens e feições nada amigáveis. Coletes jeans com um crânio alado às costas, em tom vermelho, completavam o visual. Eram os Anjos, os Hell’s Angels indo em direção à luz dos refletores, ao encontro dos Abutres.

      Em fila, se posicionaram atrás do outro grupo, fazendo a chamada “meia-lua” e encurralando os abutres que foram pegos pelas costas: eles não esperavam, foram pegos de surpresa.
      Começa um empurra-empurra. Alguém do lado vermelho grita em tom irônico e provocativo: “vamos montar um ringue para brigar com as bonecas?” O estopim foi aceso, mas o que explodiu foi um soco abutre no rosto angel. O que se seguiu foram minutos de pânico para os visitantes e expositores. Copos, garrafas, cadeiras e correntes, qualquer coisa havia se transformado em armas, mas não eram as únicas; facas, canivetes e revólveres foram vistos na briga, e funcionaram. Ouviam-se gritos de desespero, de ordens e de ataque. Homens caídos ao chão, outros agarrados, caindo sobre as motos estacionadas, uns feridos, outros tentando ferir alguém. Os abutres, em maior número na briga, avançaram; os angels em menor número, mas mais preparados e armados, resistiram. Até a chegada da polícia.

      Era tarde, o estrago já estava feito. Cinco feridos, um deles com um tiro na perna foram levados aos hospitais da região. Durante a “batalha dos céus” na terra, alguns ficaram sem poder voar, pelo menos por um tempo. Essas feridas fecham e se curam, ao contrário dessa guerra que só está começando e não há previsão para acabar. Esta foi apenas a primeira batalha. http://edercardoso.multiply.com/journal/item/168/168

    2.  
    3. lu

      30 de Novembro de 2008

      Ei, Ju!
      Mais personagens lindos, intensos, verdadeiros na sua horta, né, colega! Aquela obviedade de que eles procuram você nos seus caminhos, na sua poesia jornalística, na sua sensibilidade humana, na sua inteireza de ser. Bonito, muito bonito!!! Aliás, bonito é uma palavra forte, né? Às vezes, me remete a mais que lindo. Parabéns! Beijos!
      Lu, jornalista de BH, do vivaagora.blogspot.com

    4.  
    5. Ju Vilas

      3 de Dezembro de 2008

      Oi Lu, Mais uma vez vc me deixa até emocionada com seus comentários. Nem sei como agradecer a leitura e a sensibilidade com a qual vc capta a alma das pessoas que encontro por aí. Valeu muito. beijão
      Ju

    6.  
    7. Ju Vilas

      3 de Dezembro de 2008

      Oi Oswaldo, bela dica. Obeigada. Faz tempo que procuro um mote para falar em motociclistas ou motoboys sem os clichês de sempre. Essa história é ótima. Vou investigar. beijo, Ju

    8.  
    9. sozinhas.net » Blog Archive » Desgraceira made in Sampa

      9 de Dezembro de 2008

      […] janela. “A gente tem medo que as crianças caiam lá dentro quando chove e Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: […]

    10.  
    11. problema

      13 de Julho de 2009

      queria somente esclarecer algumas coisas sobre o assunto ocorrido no encontro de motos…é que, os abutres que se diz um moto clube nacionalista,tem coligação por de traz do pano com um moto clube estrangeiro que tem briga com os hells angels…então há interesses de ambos os lados de conquista de tropas para nao perderem campo…entendeu? e isso não vai acabar tão cedo e muito sangue vai ser derramado…

    12.  
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