Depois de uma semana sem posts, Urblog está de volta. A blogueira visitou uma mini cidade no interior do Estado, só para resfriar o olhar viciado na megalópole. Há mais de 100 quilômetros da capital paulista, nada de congestionamentos, nada de poluição. O som do silêncio chega a incomodar. É estranho. E há quem chame de aprazÃvel. Na volta, a Marginal do Rio Pinheiros dá boas vindas: a cidade tem um mesmo um cheiro que é só seu. Imagens só suas, arte só sua, ruÃdos sem fim…Uma cidade que grita animada quando ama e chora aos berros quando sofre.
NO AMOR E NA DOR: SP é só intensidade
Na vida dele, tudo é muito. Casou oito vezes, teve 13 filhos e 9 netos - que
ele mal conhece. Até aÃ, nada muito incomum. O que pode parecer esquisito mesmo é o fato de Deusomar usar três relógios de pulso que marcam o mesmo horário - de BrasÃlia. Já carregou seis, três em cada braço. Por isso, não se atrasa desde 1968, quando adquiriu a mania. E aos 68 anos, acredita que não vai morrer nunca, já que tem saúde de ferro e não pega nem gripe. Já reagiu a três assaltos e garante que ladrão só o pega se estiver dormindo. Hoje vive sozinho, na Vila Carrão, mas gosta mesmo é da Avenida Paulista. Nasceu na Bahia, morou no Rio e veio para São Paulo há mais de 50 anos. Levou um golpe financeiro de sócios mineiros e por isso não confia em ninguém que tenha nascido em Minas Gerais. Posando de bem resolvido, diz que não dá a mÃnima para a famÃlia, não paga pensão para os filhos e nem faz questão de ver os netos. Sem culpa, sem remorso. E sempre pontual.
Plas está encalorado. Sofre com as altas temperaturas da metrópole. Mas não está preocupado com a crise econômica. Fevereiro foi um mês gordo. “O melhor desses 55 anos em que estou aqui” analisa. Ali, na Augusta lado centro, antes da Antonia de Queiroz, está a loja de Maurice Plas, francês de nascimento, paulistano por opção. E alfaiante por formação prática, desde que começou a ajudar o irmão - que chegou antes ao Brasil - numa alfaiataria, em 1951. Depois de abrir loja própria, passou a desenhar e costurar boinas, boinas e mais boinas. Isso porque Tarcisio Meira, cliente de Plas na época do teatro, gostou tanto da boina de Marice que pediu para si. Ganhou. A boina vermelha, comprada em Paris, inspirou. E Plas comecou a criar boinas, e mais boinas, chapéus, bonés, panamás e varios tipos de adornos protetores de cabeças.
A empresa cresceu mais depois que a familia Plas - dois filhos, Maurice e Robert, trabalham na loja - criou um sitio e mergulhou no mundo virtual dos negócios. Sucesso.
As belas netas de Plas - viva a terceira geração…
David ajuda a mãe na barraca lojinha de ervas há dois anos. Aos 16, sonha em ser Oficial da Marinha, da Aeronáutica ou do Exército. “Ao completar 18 anos†ele vai se alistar, claro. Até lá, ajuda as pessoas a prevenir e tratar doenças com chás, infusões e cápsulas feitos com produtos naturais. A barraca tem cerca de 100 tipos diferentes de ervas brasileiras. Algumas são muito populares, como eucalipto, arruda, carqueja. Outras tem nomes esdrúxulos, como “mamila de cadelaâ€, que ajuda a sarar dor de dente. Os mais vendidos são os que têm efeito emagrecedor. Na barraca comandada por David (que assume os negócios quando a mãe não pode ir ou vai resolver outros assuntos), o movimento não para. E a maioria dos clientes é mulher. Embora sonhe com a carreira militar, David tem jeito de comerciante. É notável pelo jeito das mãos quando conta o bolo de notas e devolve o troco. E se não der para ser oficial, ele concorda em estudar Farmácia. Gosta também das ervas medicinais. No vÃdeo, ele fala um pouco das propriedades de cada erva.
É Augusta, mas prefere ser chamada de Hilda. Poderia ter encontrado o segundo, terceiro ou quarto grande amor da vida, mas depois que o primeiro não deu certo, desistiu e está solteira até hoje. A solidão não mete medo, trabalho também não. Só a saudade. Queria ter seguido a carreira de bailarina, mas o destino também não deixou. Só mora na Paulicéia porque quando ia voltar para a Alemanha com os pais (eles nasceram lá; ela, aqui) estourou a Segunda Guerra Mundial. Então a famÃlia desistiu da viagem e ficou por aqui mesmo. Mas o único grande amor da vida de Hilda, se bobear, já morreu. Eles namoraram três anos, quando ela tinha 20. “E ele era seis anos mais velho…â€, calcula. Mas os pais de Hilda acharam que o rapaz não combinava com a então rapariga. “E naquele tempo a opinião dos pais valia, a gente obedeciaâ€, avalia. Hilda assistia a uma perfomance de dança na Paulista, em frente ao Trianon. Voltou do trabalho e resolveu parar para ver
Urblog lança uma nova série: Sem palavras. São recortes da cidade em imagens que dispensam muitas explicações.
Ana Maria nem se lembrava ontem que era o Dia Internacional das Mulheres. Tudo bem, a data pode até ser discriminatória, já que não inventaram Dia dos Homens. Ana não ganhou uma flor, ninguém comentou nem deu parabéns. Vivia um domingo normal, como outro qualquer. Trabalhando, claro. Como sempre. No Parque da Ãgua Branca, ela vende cachorros quentes nos fins de semana com uma amiga, a Rosa. E de segunda à sexta, vende lingeries. Há 20 anos, o marido a deixou com três filhos. Sumiu no mundo. “Fui pai e mãe e já fiz de tudo na vidaâ€, orgulha-se. Ana Maria é caso clássico, comum entre as mulheres de sua idade (55 anos) que sobrevivem contando mais com amigas e parentes do que com os maridos – ou pais de seus filhos. Ana construiu o apartamento em que mora no esquema de mutirão. Ou seja: acentou tijolos, bateu laje e, hoje, quando se deita na cama antes de dormir, olha com orgulho para o teto e as paredes que construiu. Feliz dia das mulheres, Ana!
Ao se lembrar da filha mais nova, que mora em São Paulo, Ana se emociona
Quem olha de fora, vê uma singela loja de lingeries. Mesmo localizada na rua Augusta sentido centro, a loja parece até ingênua. Num cantinho lá dentro, entretanto, surpresinhas: produtinhos de sex shop, creminhos, anéis… Tudo bem discreto. Marcos Mestichelli é formado em Direito, mas já abriu todo tipo de loja, imobiliária, lanchonete, empresa de eventos e até… escritório de advocacia. Agora, entre outras atividades, ajuda Janete, a mulher, no point de “moda Ãntimaâ€. Ele conhece de cabo a rabo a sra. Augusta, uma das mais famosas da cidade. “Aos 8 anos eu estudava na Antonia de Queiróz e já andava isso tudo aquiâ€, conta. Escola formal + escola das ruas: tudo o que a maioria das pessoas precisa, um pouco de cada. E no mÃnimo.
Marcos conta histórias de clientes, mostra e analisa os produtos.
No meio da conversa, uma batida corriqueira na porta do estabelecimento. Elemento foi visto escrevendo nos muros e batentes. Nada demais. Urblog se interessa e logo se desinteressa.
Mas o militar fica cabreiro, chama a blogueira, questiona… Ia até jogar o vÃdeo no lixo. Revista de rotina, sem novidade nenhuma. Mas o policial não era lá muito amistoso na abordagem. Perguntou, falou, não deixou ninguém falar e ta. Eles acham que a imprensa nunca reconhece o bom trabalho deles, só critica quando a policia age e agride ou mata bandido. Mas jamais enaltece uma captura limpa, dessas heróicas. É, deve ser até mais comum do que abuso. A blogueira sabe disso – ou pode imaginar -, explica isso e fica tudo bem. Esclarece também que não pretende fazer denúncias de bobagens corriqueiras e que, claro, sabe que eles estão cumprindo a função. Deram bronca no menino, magrelinho, cara de 17, se pinta de malandro sádico. “A parede da sua casa você faz isso? Não, néâ€, discursavam os dois militares. Só não deixaram gravar tudo.
Ou melhor: não deixaram gravar nada, só a animosidade inicial
Sim, a bicicleta é uma alternativa saudável para se locomover sem enfrentar os paralisantes congestionamentos de São Paulo. Ecologicamente correta, não polui. Economicamente viável, não gera seguro, nem IPVA, nem gasolina. Seria tudo maravilhoso… Caso os paulistanos pudessem pedalar em ciclovias, em vez de disputar espaço com carros, ônibus e caminhões.
A estudante Julia acabou de completar 18 anos de idade e costuma andar a pé pela cidade. Mas está ansiosa para pegar a carteira de habilitação. Não vê a hora de se locomover de carro pela cidade. Embora saiba - e goste - de andar de bicicleta, não pensou em adotar a magrela como meio de transporte. Tem medo. Caminhando com uma amiga pela avenida Paulista, a jovem parou para ver a bicicleta branca que está no local em que a massagista Márcia Regina de Andrade Prado foi atropelada no dia 14 de janeiro. Márcia usava a bicicleta para trabalhar. Na pista sentido Consolação, perdeu o controle e caiu. A roda traseira do ônibus passou sobre a cabeça da moça, que morreu na hora. Márcia entrou para as estatÃsticas que metem medo em meninas como Julia: todos os dias, o trânsito paulistano mata 4,3 pessoas e deixa outras 72 com ferimentos graves. No local em que Márcia caiu, há uma cruz. Ao lado, um desenho onde se lê: “eu por nósâ€, bem perto do canteiro onde está a bicicleta branca e a foto da massagista. Julia, impressionada, diz que antes de adotar uma bike como meio de transporte, torce para que logo tenhamos mais linhas de metrô e ônibus. Enquanto isso não acontece, ela vai circular de carro pela Paulicéia. Também.