Juliana Vilas

Juliana Vilas, 29, codinome "Pássara", é repórter. Do tipo que gosta de "medir ruas" e ouvir histórias de gente de todos os tipos. Paulistana da zona norte, já morou em vários becos da cidade: Santana, Tremembé, Jaçanã, Tatuapé, Paraíso, Água Branca, Aclimação, Paulista e Bela Vista. É uma espécie de garimpeira urbana de "causos", com ou sem finais felizes.



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  • 28 de Maio de 2009

    A cidade dos sentidos

    Zilda vai casar no próximo fim de semana. Oziel trocou alianças há cerca de três meses. Zilda é massoterapeuta. Oziel é músico multinstrumentista. Eles cantam juntos no coral. Riem juntos, tem amigos em comum. Todos com um detalhe (ou não) em comum: não enxergam. O que não quer dizer que eles não vejam, claro. Zilda tinha visão perfeita até os 26 anos de idade. Reaprendeu a viver sem enxergar depois de contrair uma conjuntivite que rapidamente evoluiu para a cegueira total. Raro, mas não impossível. Oziel nasceu cego. Em nem interessa muito o motivo.

    Eles moram em São Paulo, transitam pela cidade sem ajuda de ninguém. E sentem a metrópole de modo muito particular: enxergam com os ouvidos e com as pontas dos dedos. O cinza que a maioria vê está no cheiro de fumaça dos carros, a multidão é notada pelo calor dos corpos em movimento.

    Mas além de tudo isso, o que mais fazem é mesmo “rachar o bico†das pessoas que fazem perguntas idiotas, do tipo: “como você toma banho?â€, “como se limpa depois de ir ao banheiro?†e, o que é pior: “quer um trocado para comprar comida?â€.

    Zilda e Oziel estão juntos no coral da ONG Visão do Bem, criada e gerenciada por Natanel Joaquim (veja entrevista dele amanhã aqui), também deficiente visual.

    A partir de hoje, Urblog publica uma série com depoimentos de sete deficientes visuaus que moram, trabalham e, claro, se locomovem na capital paulista. Todos amigos, cada um com uma história, um dia a dia, um ponto de vista (ops) sobre a cidade, sobre a vida, sobre a cegueira. Mas todos muito bem humorados, cheios de auto estima e independentes. Num bato papo animado, tudo vira piada para eles, principalmente o fato de serem cegos.

    * A blogueira não tem dúvida: eles veem – sentem - o mundo melhor do que eu e do que muita gente que mantem os dois olhos bem abertos o dia todo.





    27 de Maio de 2009

    Tem caloura no mundo das ruas

    Valdivina não tem nada de divina. E até já foi perseguida, acusada de bruxaria por alguns religiosos de Minas Gerais, onde nasceu a senhorinha de 64 anos que, há um mês, mora nas ruas de São Paulo. Uma novata no mundo das ruas, embora em idade avançada. A filha de Valdivina, “que deve ter mais de quarenta anosâ€, segundo a mãe, foi criada por uma tia. Valdivina diz que era muito jovem quando teve a menina e por isso deixou aos cuidados da irmã. Irmã e filha, agora, se negam a abrigar a pobre senhora, que perambula pelas ruas da capital, com duas sacolinhas de roupas e cobertor e nada mais. Pede um trocado aqui outro ali… Aquela vida, né? Bom, ela parece lúcida. Mas como de perto ninguém é normal, imagina essa velhinha, uma nova moradora de rua que diz já ter tido de “um tudo na vidaâ€?



    25 de Maio de 2009

    Abra a porta e a janela

    Era a avó dela quem fazia bonecas de pano, e sempre pintava o tecido de preto, para que as netas se identificassem com o brinquedos, de algum modo. Ao lembrar desses saborosos flashes da infância, Joyce se deu conta de que os fabricantes de brinquedos não faziam bonecas negras, nem orientais, nem indígenas, nem deficientes. O mundo das bonecas, afinal, é dominado pelas loiras com corpo perfeito. E no Brasil, nem há tanta criança – nem adulta - loira e perfeita, né? Há 10 anos, Joyce e as irmãs chamaram as tias e fizeram os teste iniciais do que viraria uma fantástica fábrica de brinquedos. Elas costuraram os protótipos desenhados pelas sobrinhas, imaginaram milhões de possibilidades, fizeram uma reveladora pesquisa de mercado e, assim, nasceu a Preta Pretinha, com jeitão de ONG e balanço financeiro de empresa. A loja-fábrica fica na Vila Madalena, reduto de mães e crianças que preferem as bonecas de pano. Na periferia da cidade, entretanto, as pesquisas mostraram que o sonho de consumo são as bonecas de vinil, as clássicas, que vem na caixa com janelinha e são, em geral, mais caras que as demais. Por issol lá tem tudo, para todos os gostos, bolsos e classes sociais. A ideia, afinal, é incluir sempre. Joyce jamais despreza a opinião dos clientes e visitantes. Conta, emocionada, que as velhinhas se entusiasmam quando entram na loja, lembram da infância, contam histórias, falam das bonecas mais amadas da vida. E, sobretudo, como gostariam de ter alguma que se parecesse – mesmo – com elas. Nos últimos tempos, Joyce tem incentivado as pessoas a escrever essas recordações de infância. E a história da Preta Pretinha vai se entrelaçando com as das clientes e visitantes. E a Joyce, que quase virou psicóloga, vive agora de vender sonhos. Para crianças de hoje e de ontem.


    CRÉDITO: Luludi/LUZ

    Mais em Preta Pretinha



    20 de Maio de 2009

    Típico, mas não óbvio

    Em 1957, Manoel ainda não era Manolo, tinha 17 anos, morava em Santiago de Compostela e não podia nem ouvir falar em guerra, fardas e afins. Como percebeu que servir o Exército era quase inevitável, fugiu para o Brasil. “Vim sozinho para São Paulo. Aliás, para a Barra Funda, que eu amoâ€, garante. Morou numa pensão, fez de tudo um pouco para ganhar dinheiro, casou e abriu uma lojinha de consertos de sapatos masculinos. Depois, passou a fazer pisantes sob medida. Mais tarde, passou a revender os sapatos das fábricas de Franca. “Mas só couro legítimoâ€, avisa. A loja ainda continua a mesma, há 51 anos no mesmo lugar. Já Seu Manolo, quanta diferença… Além de acompanhar a evolução dos tempos - “hoje ninguém mais faz roupas e sapatos sob medidaâ€, analisa -, formou quatro filhos e tem nove netos, dos quais muito se orgulha. Trabalha sozinho, mas há alguns anos chegou a ter quatro funcionários para dar conta da demanda, que já foi enorme na época em que a saída da estação Barra Funda de trem era bem de frente à loja. Bons tempos, seu Manolo! “Mas hoje não posso reclamar não, tenho clientes fiéis há anosâ€, comemora.

    ***Se me falassem: “inventa um personagem chamado Manolo que tenha mais de 65″, ele seria exatamente como o senhor Manoel. Verossímil, claro. A blogueira ama essa coisa previsível…



    19 de Maio de 2009

    Bolsa de Valores das ruas

    Cláudio era catador de resíduos sólidos, como tantos que sobrevivem na megalópole paulista dia após dia. Com o tempo, percebeu que abrir um mini-negócio e passar para a escala seguinte do processo era mais rentável e menos cansativo. Alugou um terreno com um sócio e passou a comprar os produtos dos carroceiros para vender às indústrias que reciclam e processam os materiais. Seria o famoso gato? O atravessador? A rotina de Cláudio, que chegou do Paraná há 30 anos, é fazer a cotação dos materiais logo cedo com os compradores, nas fábricas e afins. Na hora do almoço, ele já sabe quanto deve pagar pelo quilo do papelão, cobre, lata e papel para não sair no prejuízo. “Mas isso acontece, claro, como em todo negócio. Corrro riscos todos os diasâ€, avalia. Cláudio carregou a carroça por muitos anos e entende a vida sofrida dos que vendem materiais para ele. “É perrengue para os carroceiros, né? Desde setembro caiu muito o preço dos recicláveis, por causa da crise. Pode ver que tem papelão demais largado pelas ruas, está valendo pouco. Mas tento não deixar catador no prejuízo. Eu ganho o justo, sem explorarâ€, garante Cláudio. De um mês para cá, segundo ele, o preço está parado, não cai nem sobe. “No começo do ano foi bem piorâ€, avalia. Os operadores da Bovespa devem dizer o mesmo.



    15 de Maio de 2009

    Só na Serra Pelada

    As pessoas que ficam nas ruas mais lotadas da cidade com uma placa onde se lê: “Compra-se ouro†sempre me intrigaram. Quem quer comprar tanto ouro, gente? Tá, isso até é fácil de descobrir. Mas será que esse negócio é bom mesmo? Quem tanto vende ouro? Ladrões, a viúva Porcina depois da falência, a noiva que foi largada no altar. Mas o que interessa é o senhor que fica ali na rua com a placa pendurada no pescoço. O senhor aposentado, gente boa, que não quer ficar em casa o dia todo com tédio, embora nem precise tanto assim daqueles trocados que recebe ali. E eu achava que eles ganhavam comissão. Não, nada disso. Olha ele aí:



    14 de Maio de 2009

    Perregue no Saara

    Aaaah, a Doze. A rua 12 de outubro, movimentada rua comercial da Lapa, é um dos lugares mais áridos da cidade. É o paraíso oeste da pechincha, com todos os templos da economia popular: Lojão do Brás, Marabrás, Pelicano e muitas, muitas lojas de produtos religiosos afro-brasileiros. Mas é claro que a pechincha tem preço, a pizza debaixo do braço. Como comentou o amigo Felipe Gil, a 12 de outubro (e o tenebroso túnel que cruza a linha do trem e liga a agitada rua à Lapa de Baixo) é daqueles locais em que “mesmo nos dias em que os termômetros marcam 7 graus, você sai de lá todo suadoâ€.
    Urblog também adora chamar as ruas de modo íntimo, principalmente as que são datas. A 25 de março é 25, tem a 23, a 15 (de novembro). Só a 9 de julho que não é Nove.
    E os seguranças das lojas que passam o dia sentados numa escada-banco na calçada? Intimidam ladrões das baciadas…



    13 de Maio de 2009

    Arte na nossa Cidade de Deus

    Tarde de quarta-feira em São Paulo, quase 40 graus… Urblog acompanhou os artistas Rui Amaral - já citado aqui - e Samir Mauad à Cidade Tiradentes, extremo leste da capital.
    A região, que já nasceu com vocação de cidade-dormitório pode ser chamada de versão paulista e mais pacífica da Cidade de Deus carioca.
    E Samir é pichador desde criancinha, mas transita bem no mundo do graffiti também, já que um estilo de arte urbana não exclui o outro. Aliás, nada de excluir. Rui e Samir foram à Tiradentes justamente para incluir. Eles juntaram uma rapaziada da região, meninos e meninas, e pintaram a 20 mil mãos dois enormes muros brancos que cercam um terreno da companhia de energia elétrica. Um projeto de arte educação, para ser mais exata.
    Samir, o Vício, é autor de algumas frases que estão espalhadas pela cidade. “Odeie seu ódio†é a mais popular. Não, não é dele a “O amor é importante. Porraâ€. Urblog ainda procura o autor desta. Mas Vício, em parte incentivado por Rui, começou a lançar frases de efeito nos muros, postes, placas e afins há cerca de dois anos. Virou poeta do concreto. Abandonou aquela vida vulgar de pichador-com-revolta-no-coração e agora representa uma geração de “diretores de arte de Sampaâ€. Samir nasceu na Freguesia do Ó e agora mora no Cambuci. Sob o sol quente, ele e Rui, entusiasmados, agitaram a turma da Fazenda do Carmo, como é chamado o local exato em que estão os muros agora já prontos. Confira nos vídeos.
    Pena que a entrevista com o Samir foi gravada em áudio e a blogueira não conseguiu postar (é terceira vez que Urblog perde entrevistas bacanas gravadas só em áudio, sem imagens. Se alguém souber como fazer isso – postar clipes de som – pode me ajudar?)
    Enfim… para conhecer mais do trabalho do Samir, entre aqui

    Antes de seguir para Cidade Tiradentes, Rui pintou um painel no ateliê…

    Ao chegar à Fazenda do Carmo, ninguém perdeu tempo. Os meninos já esperavam Rui e Samir. Cada artista pegou um muro e uma turma para coordenar…

    Entre o muro do Samir e o do Rui, havia uma rua

    Museu é um pichador de Cidade Tiradentes que também participou da ação, mas demorou para chegar neste segundo dia…

    Entre os dois muros havia uma rua…

    Rui e Samir se ajudam e coordenam a arte urbana coletiva…

    E quem precisa do amarelo?



    Dias antes do Natal, Camila fugiu mais uma vez. E até agora não voltou para casa da família, em São Miguel. Há cerca de um mês, no entanto, Soraia Freitas, 34 anos, mãe de Camila, de 15, descobriu o paradeiro das filha por acaso, assistindo a uma reportagem num telejornal. A filha foi filmada se prostituindo no centro de São Paulo.

    - Consegui reconhecê-la pelo jeito e pela voz. Além disso, ela aparece na TV com a mesma roupa e chinelos com os quais saiu de casa em dezembro. Até o esmalte nas unhas e a tornozeleira são os mesmos. Quando assisti, fiquei sem chão, revela Soraia, que não revela a verdadeira identidade para se proteger dos patrões da filha.

    A mãe já teve a chance de ver, ao vivo, a filha nas ruas do centro nas várias vezes em que tentou buscá-la.

    - Mas quando ela vê a gente de longe, sai correndo e some. Numa dessas vezes, juntei R$ 600, coloquei na bolsa e estava disposta pegar minha filha da rua, comprar roupas novas para ela, levá-la ao shopping, mas ela correu de mim. Voltei para casa triste, mais uma vez - lembra.

    Na reportagem, o repórter pergunta para a menor: “Onde você gostaria de estar agora?†A menina responde: “Na cama, abraçada com a minha mãeâ€.

    Soraia sabe que a filha disse a verdade, mas já entendeu que, sem tratamento médico adequado para livrar a menina do vício, existem duas Camilas: a que volta para casa aos prantos e a que mora na rua e vende o corpo para sustentar o vício.

    - Toda vez que ela volta para casa, me abraça e chora muito, muito. Mas depois de duas semanas, ela começa a sentir falta da droga e some de novo - relata.

    Há cerca de três anos, a menina de rosto bonito e corpo fraco foge da casa da família e passa dias nas ruas do centro da capital, onde se prostitui para sustentar o vício. Em crack. Camila faz parte das alarmantes estatísticas sobre o uso de drogas por menores em São Paulo. Um estudo nos centros estaduais de atendimento do Estado mostra que, em dois anos, dobrou o número de menores de idade em tratamento intensivo, passando de 179 registros em 2006 para 371 em 2008, um aumento de 107%. Ainda segundo a pesquisa, o crack e a cocaína viraram a porta de entrada nas drogas para crianças de, em média, 13 anos.

    Aos 12 anos, Camila pegou o caminho do mal. A mãe, que desde então não come nem dorme bem, lembra do primeiro porre que a filha tomou.

    - Cheguei em casa e me avisaram que ela estava no hospital meio fora de si, que tinha tomado alguma coisa e tirou a roupa no pátio da escola, recorda.

    Os educadores da escola não tomaram providências e sequer explicaram como a menina tinha conseguido beber e se drogar dentro do colégio. Quando Soraia chegou ao hospital, a filha estava transtornada, gritava e dizia coisas sem sentido.

    - Depois disso, foi tudo muito rápido. Começou a usar tudo: maconha, cocaína e do crack. Perdi o controle, embora tenha tentado de tudo para salvá-la - explica Soraia, que também é mãe de uma garota de 17 anos que estuda, trabalha e jamais colocou um cigarro na boca.

    - A Camila sempre diz que a irmã é muito careta, mas sei que ela sente inveja da mais velha, avalia a mãe.

    Na primeira vez que Camila fugiu de casa, Soraia se desesperou e a vizinhança toda do bairro de São Miguel Paulista saiu à procura da menina. Dias depois, a menor voltou. Mas Soraia nem imaginava que a filha sumiria de novo. E partir de então, foi quase sempre a mesma coisa: a garota sai, volta meses depois toda suja, chora, não conta o que fez na rua, diz que está arrependida, fica cerca de 15 dias em casa e depois desaparece novamente. A mãe, que no começo dormia sentada no portão de casa na esperança de ver sua caçula chegar, já chamou o Conselho Tutelar três vezes.

    - Eles não resolvem nada, garante.

    Já levou Camila para uma clínica pública para dependentes químicos:

    - Eles a mandaram para casa depois de uma semana dizendo que ela tinha paquerado o educador.

    E já prendeu a menina em casa para evitar fugas.

    - Quando ela está em casa, durmo com as chaves dentro do travesseiro para ela não pegar. E quando ela não está, não durmo…

    Padecer no paraíso? É… Feliz dia das mães, Soraia. E boa sorte…

    Amanhã, acompanhe mais uma história de mãe, em comemoração ao dia delas.

    LZ

    CAMILA foi filmada e fotografada pelo repórter LZ. As imagens da menina estão na reportagem investigativa sobre prostituição infantil publicada num jornal semanal e num telejornal. A mãe, só por isso, teve notícias da filha desaparecida há meses.



    05 de Maio de 2009

    Cafona é cool

    Foram 24 horas ininterruptas, 800 atrações, 4 milhões de pessoas, muitas garrafas de bebidas fortes e latas pelas ruas, 520 atendimentos médicos nas 40 ambulâncias e 20 UTIs móveis distribuídas em diversos pontos da cidade. A Virada Cultural deste ano foi muito animada, mas sucesso mesmo foi o show do Reginaldo Rossi. Aliás, o palco cafona foi uma Virada à parte. O show do RR, um mestre de cerimônias de mão cheia, marcou o coração dos que asistiram. Falou algumas verdades, como “Todo cantor do mundo quer ser popular. Quem não bregar está mortoâ€. Faz sentido. “E por que em inglês pode e português não?â€, gritava indignado. “Eeeeeeeeu não sou cahorro não”, cantava, homenageando Wladick Soriano. Aliás, RR fez mais uma pergunta pertinente: “Frank Sinatra pode e Waldick Soriano não pode?â€

    post inspirado por Fábio Embu