O roteiro parece bem comum. Mas não é. FamÃlia pobre da zona leste paulistana, pai alcoólatra, sete filhos, mãe coragem. Para completar a renda, a mãe começou a fazer coxinhas. Os filhos saÃam para vender. Natanael Joaquim era um deles. Simpaticão, fazia sucesso. “Vendia 600 salgados em três horasâ€, conta, antes de soltar a indefectÃvel gargalhada. Essa gargalhada, aliás, é uma das marcas registradas de Natanael. Espontânea, contagiante.
Vendendo coxinhas aos 14 anos, alguns reclamavam que foram ignorados quando passaram por ele na rua. Natanael só conseguia ler se chegasse bem perto, bem perto. Como a mãe enxergava pouco, por causa de uma doença degenerativa chamada ceratoconi, diziam que ele queria imitá-la. Mas ele seguiu assim. Um dia, na Praça Patriarca, foi confundido com um “marginal†procurado pela polÃcia. Na delegacia, viveu uma das experiências mais humilhantes. Errou o nome do delegado. Era Francisco e Natanael o chamou de Afranio. O xerife foi sutil: “Além de negro, é burro e não sabe lerâ€. E Natanael passou a noite na cadeia, antes de descobrir que, por causa de uma toxoplasmose na retina já havia perdido boa parte da visão. De fato, não lia bem de longe.
Natanael, negro, pobre e quase cego (hoje, tem 10% de visão), é o dono de uma história que está virando filme. As gravações de Enxergando no escuro, com direção de Renato Pimentel, devem começar no ano que vem. Mas hoje, Natanael está voando para Nova Iorque. Vai acompanhar a Orquestra Bachiana Filarmônica de São Paulo, regida pelo maestro João Carlos Martins. Tradutor e intérprete, abriu uma ONG, a Visão do Bem, é regente de um coral de cegos e tem uma escola de inglês no Tatuapé. Ao conversar com ele, é quase impossÃvel notar que seja deficiente visual. Pela sagacidade, a rapidez de raciocÃnio e o bom humor.
Em 1991, o cantor norte-americano Billy Paul veio ao Brasil. Natanael trabalhava no departamento de marketing do então banco Banespa. Impressionado com a força de vontade do rapaz, o cantor se ofereceu para pegar um tratamento nos Estados Unidos. O prêmio que Natanael ganhou num programa de TV pafou a passagem. Foi para Nova Iorque, mas não fez a cirurgia que poderia deixá-lo totalmente cego ou totalmente curado – havia só 50% de chance de dar certo – mas ficou por lá. Para pagar o curso de inglês, foi carpinteiro, garçom e vendedor de jornais. O restante, aprendeu nas ruas.
Este mês, vai passar uns dias nas mesmas ruas do Harlem e no Bronx em que aprendeu a falar inglês como um nativo. Ficará hospedado na casa de amigos, investigando como
vivem os negros de Nova Iorque.
Natanael não revela a idade, no melhor estilo “Glória Maria de calçasâ€. Fala rápido, envia e lê e-mails. E garante: “parei de chorar e comecei a vender lençosâ€. Por causa de um tratamento a laser que fez em Campinas, a doença estabilizou e ele poderá contar, até morrer, com os 10% de visão que o permitem pintar, bordar, cantar, dançar, assobiar e chupar cana. Tudo ao mesmo tempo agora. E à s gargalhadas. O próximo passo, segundo ele, é conhecer o presidente Barack Obama. Duvida?
NAS MÃOS, a biografia que vai virar filme, No Pain, no Gain
PAGANDO gatão em foto da revista Raça
Conheça a ONG Visão do Bem
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Num passado quase distante, o analista de sistemas William Cruz, 36, já dirigiu carro bom, “último tipoâ€. Mas conseguiu se livrar do que considera algo cultural no Brasil e em São Paulo: a dependência do automóvel e a necessidade de trocar de carro anualmente, por uma questão de estatus. “O carro nem está velho, mas a pessoa acha que precisa trocar e faz mais um financiamento. Ou seja: passa a vida pagando dÃzimo à s montadoras”, compara.
Quando se deu conta disso, vendeu o carro e passou a se locomover exclusivamente de bike. Hoje, é cicloativista e especialista em mobilidade urbana. Semana passada, no Dia Mundial Sem Carro, fez uma cobertura via Twitter das adesões Brasil afora e das movimentações na cidade. Invertendo a lógica que parece dominar as ruas da metrópole, diz que os “ônibus deveriam ser as grávidas das ruas, que tem prioridade e respeito dos demaisâ€.
William está de casamento marcado para o mês que vem. Os noivos, padrinhos e convidados vão sair da Praça do Ciclista, na Avenida Paulista, e seguir para o cartório, na Saúde. De bike, claro. “Até o pessoal do cartório achou legal e comentou que nunca viu ninguém casar de bicicletaâ€. Provavelmente não mesmo…
Urblog: As adesões ao grupo dos “sem carro†aumentam a cada ano? Tem mais gente usando a bicicleta não só para passear no parque? O que você tem notado?
William Cruz: Sim, não só no dia Mundial Sem Carro, acho que tem aumentado o uso da bike em São Paulo. Antes achavam que era coisa de maluco ecochato, mas a visão das pessoas está mudando. Até porque proteger o meio ambiente virou cool, é bonito, tá na moda. Mesmo que a pessoa não faça nada, ela declara que faz porque pega bem. A moda dita comportamento e muita gente tenta, ao menos, mudar os hábitos. É válido. Mas mudar comportamento demora. Se a pessoa acostumada a andar de carro resolve sair sem a máquina um dia e já entra no busão pensando: ‘vou pro abate’, ela vai ter uma experiencia negativa. Claro.
ESP: E de que forma isso pode mudar? Como acelelar o processo de mudança de cultura?
WC: O objetivo é fazer a pessoa experimentar. Se leva uma hora de carro até o trabalho e uma e 15 minutos de ônibus, ela vai parar para pensar. Tem coisas da cidade que do carro você não vê, e a pé é possÃvel.
ESP: Você já teve carro. Como se livrou desse vÃcio?
WC: Eu usava bicicleta para passear, nos fins de semana. Comecei a ir de bike para o trabalho no dia em que meu carro quebrou. Ir de táxi é caro, ônibus demora… Fui de bike sem paralama e cheguei lá sujo, molhado, e satisfeito com a experiência. Antes imaginava que seria complicadÃssimo trabalhar de bicicleta, ninguém ia me respeitar no trânsito e eu poderia morrer atropelado a qualquer momento. Hoje só ando de bicicleta. É só quebrar a barreira psicológica. Eu tinha um carro bom e curtia dirigir, desde os 18 anos. ‘Ir de carro é mais bonito, dá estatus’ - eu tinha muito isso na cabeça. Mas quando tentei algo diferente, gostei. A mudança não foi radical. Foi bem paulatina. Fui vendo, devagar, mais vantagens em não usar o carro do que em usar. Aà vendi meu automóvel. Agora, vez ou outra saio de carro no fim de semana porque minha noiva tem um.
ESP: Qual a maior distância que você já percorreu na cidade?
WC: Moro na Vila Mariana e, tirando o uso esportivo, cheguei a pedalar 90 km num dia dentro da cidade. A minha média: 50 km por dia. Acho que posso ser considerado cicloativista.
ESP: Qual é a São Paulo dos seus sonhos?
WC: Uma cidade que não discrima meios de transporte, onde haja espaço igual para bikes, pedestres e ônibus. Em que andar a pé e não ter carro não seja fator discriminante, como é hoje. Quem não tem carro pode ser considerado um coitado, pobre e sofredor. As pessoas tem direito de não usar o carro, mas do jeito em que a cidade foi construÃda, elas deixam de ter esse direito. A geografia e a lógica urbana favorece o transporte individual. Se você deixar a cidade fácil para transporte público, as pessoas podem, ao menos, optar.
ESP: Mas percorrer certas distâncias de bicicleta é impossÃvel, há trajetos em que o sujeito demora 3 ou 4 horas dentro de um ônibus. Alguns paulistanos jamais terão essa opção por causa do tamanho da cidade…
WC: Claro, quem sai de Itaquera para o centro, deve preferir ir de carro, não tem outro jeito. Mas se nas ruas só essas pessoas estivessem nos carros – as que percorrem distâncias impossÃvel sem ele – acho que seria bem mais fácil andar em São Paulo.
ESP: De todas as medidas para melhorar a mobilidade na capital, qual você considera mais urgente?
WC: Duas coisas são essenciais agora: ampliar o metrô (processo que já começou) e estimular o respeito ao uso da bike. Isso não significa só criar ciclofaixas, mas convencer os motoristas a respeitarem quem não anda de carro.
ESP: Mas como? O governo tem a ver com isso?
WC: Sim, pode fazer campanhas educativas, investir em sinalização. Por exemplo: antes, os carros paravam sobre a faixa de pedestre. Ninguém respeitava a faixa. O Jânio, quando era prefeito, ia para as ruas multar os que faziam isso. Ninguém mais fez. Antes, ninguém usava o cinto de segurança também. Hoje, todo mundo usa. Você pode mudar a cultura por meio de multas, campanhas. Basta dizer que a bike tem direito de estar ali, e isso é uma questão de sinalizar a rua. As bikes pintadas no asfalto ajudaram nisso. Muitos acharam que era medida da Prefeitura. E os motoristas viam que a bike tinha direito de estar ali. Ao menos pararam para refletir sobre isso. Alguns motoristas acham que o ciclista não deve estar na rua, deve ficar só nos parques. Não precisa de muito investimento, só boa vontade já melhoraria – e muito - a situação.
ESP: Na área de transportes urbanos, o que pode ser feito? Isso porque, numa cidade ideal, muita gente pode largar o carro e não pedalar.
WC: Corredores de ônibus mais inteligentes. O que vem de Santo Amaro para o Terminal Bandeira, por exemplo. Em alguns pontos, o fluxo dos ônibus se mistura com o de carros, os ônibus não conseguem cruzar e formam filas enormes. Na altura do no túnel sob a Avenida Paulista, o corredor da esquerda some e surge depois à direita, misturando ônibus com carros. E carro é que que nem água escorrendo. Sobrou espaço, lá estão eles. Os corredores devem contÃnuos e exclusivos para os ônibus, até táxi atrapalha. O ônibus deveria ser a mulher grávida do transito. Deveria ter prioridade. Em horários de pico, passa um ônibus lotadão e outro da mesma linha logo atrás, vazio. O ônibus se atrasa, o ponto enche, todos sobem no primeiro e o que não se atrasou tanto e chega na sequência fica à s moscas. O corredor tem que fluir sem formar filas. Não penso em revolução, são pequenas medidas. Manter o corredor exclusivo para onibus é essencial
ESP: E o incentivo à compra de carros? Esse ano o governo baixou o IPI e isso, claro, coloca mais carros nas ruas.
WC: Brasil depende das montadoras. Teve uma época em que todo mundo sonhava em trabalhar numa multinacional. É o modelo rodoviarista. Dizem: a economia vai bem porque as montadoras venderam bem. Mas tem algo errado nisso. Parece as empresa que tem um cliente só. Se o cliente sair, a empresa fecha. Não dá para procurar outro cliente? O governo está pagando para botar mais carro nas ruas, quando o melhor seria investir em formas que tire a necessidade das pessoas de usar o carro para tudo.
ESP: Tem um elemento cultural nisso? Independente de incentivo…
WC: Claro. Já vi uma pessoa que, diante da oportunidade de comprar uma casa, titubeou porque, caso comprasse o imóvel, não poderia trocar de carro. O carro dela está velho? Não, é 2007. Mas ela acha que precisa trocar. Essa pessoa prefere morar de aluguel do que ficar sem “o carro do anoâ€. Ele vai pagar dÃzimo para as montadoras para o resto da vida. É assim que vive o brasileiro: fiel à s montadoras. Depois de dois anos o carro desvalorizou, e a pessoa tem que vender o carro “velho†para comprar outro e, para isso, entra num financiamento. Isso acontece com quase todo mundo em São Paulo. Acho que só escapam as classes E – que não pode comprar carro - e A, que compra à vista.
Paulina Chamorro, “vozinha†carimbada em AM e FM na capital, é também uma brava ativista ambiental e jornalista de competência incontestável. Há uns 10 anos. No Dia do Tietê, claro, ela estava lá. No rio. Ou melhor, numa praia que fizeram às margens. E gravou uma entrevista exclusiva para o Urblog. Com o seu Mário, pescador, que ama o Tietê, ama São Paulo, ama a natureza. Apesar da chuvas, bravos paulistanos foram à Ponte das Bandeiras. Apesar da chuva, bravos paulistanos deixaram o carro em casa no Dia Mundial Sem Carro. Ueeeeeeeeepa!
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Polenta, bolinho de chuva, viola e tambor. No Revelando São Paulo, o festival de Cultura Paulista Tradicional que terminou ontem no Parque da Ãgua Branca, teve de tudo um pouco. Comes, bebes, música, dança e artesanato. Destaque para os comes, com fartura de linguiças, polentas e bolinhos de chuva. No primeiro fim de semana, os colombianos – espalhados por todos os bairros da cidade de São Paulo, segundo uma moça do grupo – apresentaram uma dancinha bem tÃpica. Mataram saudade da terra natal e mostraram que eles também já fazem parte da cultura paulistana “de raizâ€. Raiz, raiz….É.
Havia ainda uma área indÃgena, com artesanato, tatuagem de pau brasil e música. As aldeias eram identificadas nas barracas de cada artesão. O pataxó Ronaldo, 19 anos, mantém, de fato, as tradições e costumes dos antepassados. Quando chegou à selva de concreto, estranhou, sobretudo, “o tanto de gente pra lá e pra cáâ€. Depois, claro, se acostumou. Mas confessa: “à s vezes ainda levo um susto quando ouço barulhos estranhos, de avião acho, que surgem de repenteâ€.
No sábado passado, grupos de jongo se apresentaram no palco. O jongo é uma dança, de origem africana, possivelmente de Angola. É do jongo que nasceu o samba, o pagode e quase todos os ritmos afro-brasileiros. Brasil afora, o jongo é também conhecido como caxambu e bambelô. O canto é fundamental - associado aos instrumentos como atabaques e chocalhos. As músicas são chamadas de ponto e são cheias de metáforas particulamente ligadas à cultura quilombola. O jongueiro tem que decifrar o ponto.
A mais velha jongueira de São Paulo esteve na festa. Dá uma olhada:
Mas as estrelas da festa foram as irmãs de Paula, da cidade de Dois Córregos. Elas já estiveram na capital e participaram de outras edições do evento. Contam dos italianos – e gringos em geral - que procuram a goiabada delas, doque mais gostam no festival, onde dormem os que vem de fora para o evento…
E diretamente de Guaratinguetá, um grupo de boiadeiros que ajudou a transformar a São Paulo capital numa região um pouco mais rural. Até bufalo eles trouxeram para a selva de concreto. Interrompemos o jantar do “hômi†para conversar um pouco com eles na porta do “apartamentoâ€.
Ao andar por São Paulo nas últimas semanas, é possÃvel pensar que limpeza é que nem água: a gente só valoriza quando não tem. E as ruas da capital estão sofrendo com a saudade dos varredores e implorando por limpeza. Com ou sem água.
Quem deve estar sentindo falta de alguma coisa este mês também são alguns os profissionais da área. Os mais recentes cortes de gasto na limpeza pública seriam responsáveis pela demissão de 3.274 dos 8,2 mil varredores da capital, segundo o sindicato da categoria.
Em agosto, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) determinou um corte de 20% nas verbas para a retirada de entulho e a varrição das ruas da capital. Isso representa uma redução de R$ 58,4 milhões na previsão de gastos com coleta de resÃduos (R$ 31,56 milhões) e varrição (R$ 260,3 milhões).
Parace que agora o prefeito vai compensar isso, tirando verba de outra área e devolvendo à limpeza pública. Tomara que não seja da merenda escolar, que também vai fazer falta… (#prontofalei). Como esse blog não se mete diretamente em polÃtica, seguem imagens da cidade pós-corte de gastos. E tem ruas bem piores. No Jardim Peri, por exemplo, já tem montanhas de entulhos, segundo uma moradora do bairro.
“Mais LIMPEZA, por favorâ€: Rua Tanabi, Perdizes, semana passada, 12/09
IMPERTUBÃVEL: entulhos e recicláveis de todo o tipo continuam aglomerados sob o orelhão da Rua Tanabi, dia 17/09 – tem um saco branco que está ali há uma semana, pelo menos…
Lapa, dia 17/09
Rua Turiaçu, 17/09
Vejam só o que a “selva de arranha céu” pode fazer com uma magrela indefesa…
O dono, Marcus Vinicius, é o personagem do post anterior. Ciclista urbano há 10 anos, pode ficar sem pedalar até ano que vem, caso tenha que operar o braço, fraturado no acidente que deixou a bike assim:
Ele adotou a bicicleta como meio de transporte em São Paulo há 10 anos. Quando estudava na USP, Marcus Vinicius Costa descobriu que a forma mais rápida de chegar lá era de bike. Quando o carro quebrou, passou a usar a bicicleta para ir a qualquer lugar. E desde então, levanta a bandeira do cicloativismo, sem participar de grupos organizados, se acotovelando com carros e ônibus nas avenidas mais lotadas, todos os dias. Em rolês mais ousados, Marcus já foi de bike para Florianópolis, para a Bahia e várias outras cidades. “Virei xiita, comecei a ficar mais resistente, com objetivos cada vez maiores e a ter bikes cada vez melhores”, lembra. De lá para cá, a cidade não ficou mais receptiva aos ciclistas, até porque está hoje mais lotada de carros. Mas o cicloativismo ganhou visibilidade, observa. Marcus circula quase sempre entre a faixa dos ônibus e a dos carros. “Para me fazer perceber, ocupar o espaço mesmo”, explica. Mesmo sendo um dos pioneitos, Marcus não era o único a empunhar a bandeira entre amigos e parentes. Márcia Regina de Andrade Prado, que morreu atropelada por um ônibus na avenida Paulista em janeiro, era prima dele. “Fiquei bem triste, nem revoltado, nem com medo de peladar. Mas até hoje fico chateado quando lembro do que rolou com ela”, conta.
Sábado passado, Marcus praticamente nasceu de novo. Subia pedalando a avenida Teodoro Sampaio, em Pinheiros, quando foi atropelado por uma moto. “Não lembro de nada, onde eu estava, como foi, de quem é a culpa. Acordei no PS no HC todo quebrado”, conta. Marcus, que fraturou o braço, tomou pontos na perna e machucou o corpo todo, considera que o principal problema agora é o risco de ficar até o fim do ano sem pedalar, caso tenha que operar o braço. “Pior não é a do fÃsica, mas o orgulho ferido. Notar que eu estava no lugar errado, que vacilei mesmo sendo experiente e, sobretudo, que poderia ter morrido por causa desse descuido. E chega a passar pela minha cabeça rever meus conceitos sobre o uso de bicicleta como único meio de locomoção, por exemplo. É arriscado andar em São Paulo e isso não deve mudar tão cedo”, avalia. Parar de pedalar, jamais. Marcus só acha que pode, sim, evitar certas vias mais complicadas para ciclistas. Como a Teodoro.
ABSTINÊNCIA: Se precisar operar o braço, Marcus só volta a pedalar no ano que vem
De todos as máquinas que circulam nas ruas de SP, o ônibus é o mais perigoso para os ciclistas. “Em geral, eles acham que, por dirigirem profissionalmente, tem mais direitos no trânsito. E a maioria faz questão de ultrapassar as bikes, nem que seja só para ficar parado na frenteâ€, observa. Reeducar motoristas, colocar ciclofaixas na cidade toda, convencer as pessoas a deixar o carro em casa sempre que possÃvel. Tudo necessário e trabalhoso. Como reinventar a cidade. Como em qualquer revolução.
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Atriz, professora de idiomas, dançarina nas horas vagas e, principalmente, figura que não passa despercebida jamais, em nenhum local ou circunstância, nem no congestionamento nem na fila do banco. Essa mulher é Brenda LÃgia Miguel. Só tem nome, mas não precisa mesmo de sobrenome. Está no comercial do refrigerante na TV, nos palcos de comédia da cidade, nas telas de cinema, nas pistas de samba rock. E ainda criou a Mexerica Filmes, produtora de uma mulher só. Brenda faz tudo: atua, filma, edita, dirige, produz, assobia e chupa cana. Paulistana incorrigÃvel, se diverte até no meio da enchente. E vive a cidade lindamente, explorando cada palmo de concreto, aço e água que encontra no caminho.
“A Mexerica Filmes começou mesmo numa brincadeira. Sozinha da Silva. A graça de tudo é: eu mesmo tenho a ideia, eu mesmo gravo, eu mesmo entrevisto, eu mesmo edito, eu mesmo boto trilha, eu mesmo posto, eu mesmo divulgo… e eu mesmo VOTO! Sim, porque tenho mais de uma conta no youtube, então… hahaha, pode reparar que todos (ou quase todos!) meus vÃdeos são CINCO ESTRELAS! E não tenho vergonha, não. Porque acho que sou documentarista - mas o mundo ainda não descobriu isso. Por isso que ando (ainda) camuflada com câmera digital na mão; ainda sem equipe e sem credibilidade, pagando de “atrizâ€. Me aguarde.†– diz Brenda, admitindo usar as redes sociais em benefÃcio próprio, dando golpe na audiência virtual.
No meio do diluvio que inundou a cidade anteontem, Brenda tratou de aproveitar a vista da janela e ligou a câmera. Registrou o caos com poesia na Vila Leopoldina (zona oeste).
TALENTO de atriz, cabeça multimidia. É Brenda LÃgia.
Assim como Urblog, Brenda também se interessa pelos tipos paulistanos mais caricatos. E não bobeia, roteriza a diversidade paulistana, como no vÃdeo “Da 25 de março a Oscar Freireâ€. Ou vice -versa.
Brenda é pura intensidade. E a São Paulo dela é imensa, da Ponte dos Remédios à Itaquera. Da Casa Verde ao Grajaú. Ela anda tudo, conversa com todo mundo, dá gargalhada para quem mal conhece. Aà os que mal a conhecem não esquecem.
Mas se quiser bem conhecê-la, é só entrar aqui
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Todo dia é dia de baile – Chaka Hot Nightzzz
Ele não estava para muita conversa. Concentrado, estudava música no banco do Terminal Santana, acompanhado pelos roncos de nervosos motores. Toca “na noite†mas não recusa trabalho de dia. Roberto ou Bob? Ficou em dúvida. Roberto. “Roberto do Banjoâ€. Só gosta de samba, pagode e afins. Mas faz sucesso, “tem muita gente que gostaâ€.
Visita vários bairros da cidade durante o dia, mas só pega balada na Augusta. Vende plano de saúde mas sonha em ser cabelereiro. Leonardo, 19 anos de rolê na capital, não é punk da periferia, mas é da Freguesia do Ó. Gosta do bairro, conhece todo mundo lá e não pretende morar em outro canto da cidade. O estilo “cabelo colorido e tatuagem”, confessa, deixa alguns clientes meio desconfiados no primeiro contato. Depois de algum tempo de papo, entretanto, o mal estar se desfaz e fica tudo bem. A firma é no centro, mas numa tarde quente, depois de uma reunião, ele esperava o ônibus no Terminal da Lapa.
Leonardo faz, sozinho, experiências com novas cores nos cabelos. Nos dele e dos amigos. “Agora o meu já está desbotando, mas eu adoraria trabalhar com isso, ter um salão…â€
O que Leonardo mais gosta em São Paulo: a diversidade de espécies e tipos que habitam a capital paulista. E o que mais odeia? O lado ruim disso mesmo: filas, lugares lotados demais, congestionamentos. A diversidade de pessoas que abrilhantam e entopem as vias. Tudo tem um preço.
Leonardo exibe, orgulhoso, a tatuagem mais recente. Tem gostado dessa parte ilustrada do corpo nos últimos dias.