Não pára, não pára…

Ulysses, 51 anos, conhece pelo nome todos os usuários assÃduos da linha Barra Funda-Jd. Fontalis. É motorista há seis anos, mas nas últimas semanas está atuando como cobrador porque “minha carteira precisa ser renovadaâ€. Acha bom. “Cobrador ganha menos, mas sentado aqui eu converso, vejo tudo, me divirtoâ€, compara. Pai de três filhos, formou um verdadeiro clã de ases do volante. “Meu filho mais novo, de 22 anos, dirige caminhão. Eu que ensinei. Ele diz que não esquece dos tapas na perna que levou de mim quando fazia barbeiragemâ€, lembra.
Falastrão, Ulysses é daqueles que perde o amigo, mas nunca a piada. “O cabeção vai ficar com ciúme porque eu estou dando entrevista para vocêâ€, caçoa, referindo-se ao motorista de crânio meio avantajado. Briga com as senhoras do ônibus, olha as mulheres bonitas e dá fé de tudo o que acontece ao longo do percurso, de dia e de noite. “Pego à s cinco da manhã e largo à s 11 da noiteâ€.
Como assim? Desquitado, mora num quartinho na garagem da empresa, perto do Horto Florestal, na zona norte. E tem folga a cada 25 dias. Como assim? (de novo). “Você dorme? Quantas horas por dia?†“Três ou quatro sóâ€, responde Ulysses, que provavelmente tenta enriquecer só acumulando o que ganha com as horas extras. E me mostra uma planilha da empresa onde anota a hora de entrada e saÃda do trabalho. “Mas por que trabalhar tanto?â€, pergunto. “Eu gosto. Também… Não tenho nada mais para fazerâ€. “Nunca sai? Nem namora?â€, questiono, já apavorada. “Claro, mas nada sério. Eu só fico, como dizem por aÃ, com algumas mulheres. Mas só nos meus dias de folgaâ€. Nem poderia ser diferente. Namorar na catraca do busão não seria naaaada fácil…
Foi o Ulysses quem avisou, aliás. “A tarifa vai subir para R$ 2,50, viu? Vão aumentar o tempo da viagem livre de duas para três horas, mas o preço aumenta também. Você acha que eles iam só perder? Mas nunca”. É, Ulysses… Não existe jantar de graça mesmo…Â

