Juliana Vilas

Juliana Vilas, 29, codinome "Pássara", é jornalista. Mas gosta mesmo é de "medir ruas" e ouvir histórias de gente de todos os tipos. Paulistana da zona norte, morou um ano e meio no Rio de Janeiro e, apesar da agradável maresia, sofria de saudade do doce ar da paulicéia. Jamais se recusa a conhecer lugares novos e/ou inusitados, seja para comer, dançar, transar ou fazer qualquer coisa. Como pega amizade fácil em elevadores, metrôs, trens e até no ponto de ônibus, é uma espécie de garimpeira urbana das histórias cotidianas da metrópole.



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  • 28 de Julho de 2008

    Louca ou maluca?

    carne_maluca.jpg 

     

    A receita é simples: compre uma peça de acém, deixe descansar na água salgada com cebola por uma noite, cozinhe bem (na pressão) e depois desfie a peça. Faça um molho caprichado (o segredo está aí; pode colocar tudo o que achar conveniente, sendo que molho de tomate é a base) e depois misture tudo: carne e molho. Sirva quente no pão francês, de preferência.

     

    O sanduíche de carne louca é o verdadeiro hit das festas infantis. Depois do brigadeiro, claro. Ou melhor, antes.

     

    E qual não foi a minha surpresa quando descobri, depois de freqüentar várias festas caseiras no Rio de Janeiro e de fazer uma pesquisa qualitativa completa com amigos cariocas, baianos e mineiros, que a iguaria (feita exatamente assim), é típica de São Paulo? O sanduíche tornou-se, então, o “hit das festas infantis da periferia paulistana”. Delícia quase unânime entre os carnívoros, a louca, que já faz parte do cardápio dos bufetts, invade agora as ruas da cidade. Detalhe: a carne louca é totalmente diferente do famigerado churrasco grego, típico do mundo das ruas. Até pouco tempo, era uma receita exclusivamente caseira, passada de mães para filhos.

     

    Nena vende carne louca numa barraca de calçada, mas insiste que o nome real é “carne maluca”. Não sei se faz muita diferença, ela garante que é acém desfiada. Mas em vez do pão francês, ela serve o sanduíche no pão de hot dog – aquele que esfarela. A barraca da Nena fica ao lado do Fórum Criminal, na zona oeste da cidade. Ela não quis, de jeito nenhum, posar para foto ou gravar vídeos (deveria ter roubado, mas..). A prefeitura não deixa vender comida quente na rua e ela tem medo de que o blog a denuncie.

     

    - Outro dia veio aqui uma repórter de um jornal e logo no outro dia já apareceu (sic) os fiscais. Não falo mais não…

    - Então deixa eu fotografar a carne? - pergunto

    - Nããão, não pode não…

    - Mas eu não estou com fome agora e não aceito carne louca sem pão francês, então preciso ver sem comprar.

    - Não dá mesmo…

    - E essa barraca de pastel aí do lado não faz concorrência com você?

    - Não, tem gosto para tudo - responde Nena, já meio sem paciência e monossilábica, olhando para o nada…

    - Bom… E que hora do dia você vende mais?

    - Depois da uma da tarde.

    - Você mesma faz a carne?

    - É.

    - E essa declaração de amor na placa, com coraçao e tudo?

    - Não, é só… Ah, é nada isso aí…

     

    Tá então.

     

    Bom, fiquei sem entender se existe alguma diferença entre as receitas da tradicional carne louca que eu conheço desde a infância e da maluca da Nena (a carne, não a moça desconfiada). Mas também… A julgar pela plaquinha, pelo jeitão da barraca e pelo medo dela de me mostrar o recheio do sanduba, acho que nem precisava provar. De qualquer modo, em nome do bom jornalismo, passo lá de novo com fome brevemente. Aguardem.