Juliana Vilas

Juliana Vilas, 29, codinome "Pássara", é jornalista. Mas gosta mesmo é de "medir ruas" e ouvir histórias de gente de todos os tipos. Paulistana da zona norte, morou um ano e meio no Rio de Janeiro e, apesar da agradável maresia, sofria de saudade do doce ar da paulicéia. Jamais se recusa a conhecer lugares novos e/ou inusitados, seja para comer, dançar, transar ou fazer qualquer coisa. Como pega amizade fácil em elevadores, metrôs, trens e até no ponto de ônibus, é uma espécie de garimpeira urbana das histórias cotidianas da metrópole.



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  • 28 de Julho de 2008

    Não pára, não pára…

    Ulysses, 51 anos, conhece pelo nome todos os usuários assíduos da linha Barra Funda-Jd. Fontalis. É motorista há seis anos, mas nas últimas semanas está atuando como cobrador porque “minha carteira precisa ser renovada”. Acha bom. “Cobrador ganha menos, mas sentado aqui eu converso, vejo tudo, me divirto”, compara. Pai de três filhos, formou um verdadeiro clã de ases do volante. “Meu filho mais novo, de 22 anos, dirige caminhão. Eu que ensinei. Ele diz que não esquece dos tapas na perna que levou de mim quando fazia barbeiragem”, lembra.

     

    Falastrão, Ulysses é daqueles que perde o amigo, mas nunca a piada. “O cabeção vai ficar com ciúme porque eu estou dando entrevista para você”, caçoa, referindo-se ao motorista de crânio meio avantajado. Briga com as senhoras do ônibus, olha as mulheres bonitas e dá fé de tudo o que acontece ao longo do percurso, de dia e de noite. “Pego às cinco da manhã e largo às 11 da noite”.

     

    Como assim? Desquitado, mora num quartinho na garagem da empresa, perto do Horto Florestal, na zona norte. E tem folga a cada 25 dias. Como assim? (de novo). “Você dorme? Quantas horas por dia?” “Três ou quatro só”, responde Ulysses, que provavelmente tenta enriquecer só acumulando o que ganha com as horas extras. E me mostra uma planilha da empresa onde anota a hora de entrada e saída do trabalho. “Mas por que trabalhar tanto?”, pergunto. “Eu gosto. Também… Não tenho nada mais para fazer”. “Nunca sai? Nem namora?”, questiono, já apavorada. “Claro, mas nada sério. Eu só fico, como dizem por aí, com algumas mulheres. Mas só nos meus dias de folga”. Nem poderia ser diferente. Namorar na catraca do busão não seria naaaada fácil…

     

    Foi o Ulysses quem avisou, aliás. “A tarifa vai subir para R$ 2,50, viu? Vão aumentar o tempo da viagem livre de duas para três horas, mas o preço aumenta também. Você acha que eles iam só perder? Mas nunca”. É, Ulysses… Não existe jantar de graça mesmo…